REGRESSO AO NADA #1: ARRANJE UM TRABALHO, QUALQUER TRABALHO

Publicado em: 13/05/2015

por Alessandro De Giorgi*
traduzido por Leandro Ayres França**

 

Os materiais apresentados nessa série foram extraídos de um estudo etnográfico sobre o regresso de prisioneiros, que eu conduzi entre março de 2011 e março de 2014, em uma área de West Oakland, Califórnia, assolada por níveis cronicamente altos de pobreza, desemprego, falta de moradia, vício em drogas e criminalidade de rua. Em 2011, com o consentimento de um posto de saúde comunitário local que presta assistência médica básica gratuita e outros serviços básicos às populações marginalizadas na região, eu realizei observação participante com diversos prisioneiros que retornavam, principalmente homens afro-americanos e latinos, com idades entre 25 e 50 anos. Nessa série de registros, eu apresentarei breves relatos etnográficos de alguns desses homens (e, muitas vezes, de suas companheiras) no momento em que eles lutam pela sobrevivência após a prisão em um gueto pós-industrial. Para mais informações sobre esse projeto, clique aqui.

 

A frase “Arranje um trabalho, qualquer trabalho” ressoa fortemente com a experiência de prisioneiros que retornam, tentando se reintegrar na sociedade. A injunção de arranjar qualquer trabalho disponível para ficar fora da prisão é provavelmente a mensagem que eles mais frequentemente ouvem de oficiais de condicional, conselheiros de assistência social, prestadores de serviços e do vasto sortimento de atores públicos e privados envolvidos na florescente empresa de “regresso do prisioneiro” no saldo do encarceramento em massa (ver Hallett 2012). Por ora, os obstáculos estruturais que, em particular, homens e mulheres de minorias pobres enfrentam enquanto tentam encontrar trabalho depois da prisão têm sido claramente documentados pela recente literatura sobre os efeitos do encarceramento no mercado de trabalho. Desproporcionalmente marcados pela “credencial negativa” de um registro de prisão (Pager 2003), sistematicamente desqualificados para os empregos de classe média por seus modestos níveis educacionais e constantemente rotulados por formas difundidas de estigmatização racial, os residentes pobres da periferia encontram-se cada vez mais confinados às mais inseguras e precárias colocações do mercado de trabalho secundário (Western 2006). Aqui, eles lutam para se virar, movendo-se de um lado a outro entre o desemprego absoluto, bicos e trabalhos com baixos salários, temporários e sem futuro, no setor de serviços de baixa qualificação que não proporcionam renda suficiente para se ganhar a vida.

A “reforma do welfare” da década de 1990, que eliminou qualquer aparência de uma rede de seguridade social nos Estados Unidos, forçou mulheres pobres de cor, em particular, a “escolher” entre a simples sobrevivência no mercado de trabalho de baixos salários e arriscadas incursões na economia ilegal das ruas. Não surpreendentemente, ao longo dos últimos anos, mulheres de minorias tornaram-se a parcela que mais cresce na população prisional dos Estados Unidos (Richie 2013) – uma circunstância que erodirá ainda mais suas futuras oportunidades de trabalho.

Uma mulher afro-americana de 36 anos, proveniente do estado de Arkansas, Melisha teve o primeiro de seus quatro filhos aos 13 anos de idade, quando ela também abandonou a escola. Ela cresceu como uma filha de criação após sua mãe ter entregado ela e seus três irmãos ao “sistema” porque não podia criá-los – uma circunstância replicada com as próprias quatro crianças de Melisha, todas as quais estão em orfanato. A única fonte de renda de Melisha é um benefício de segurança suplementar por incapacidade no valor de US$ 721, o que tem se tornado, de modo crescente, a única forma residual de auxílio à renda disponível aos pobres após o fim do welfare. Ao longo dos três anos que eu a estive acompanhando, Melisha persistentemente tem tentado encontrar trabalho, apesar do fato de que, se ela tiver êxito, ela perderá os pagamentos de seu benefício. Essa procura desafia a racionalidade econômica, uma vez que são muito pequenas suas chances de encontrar (e manter) um emprego estável que a remunere mais do que o benefício pago por sua incapacidade.

Nas anotações seguintes, eu documento as tentativas de Melisha em se candidatar para dois empregos bastante diferentes: um, na fábrica de chocolates finos da Ghirardelli, no coração da luxuosa San Francisco; e outro, em uma loja Walmart, em East Oakland, a “empregadora do gueto” por excelência. No fim das contas, Melisha não conseguiu nenhum dos empregos, assim como lhe ocorreu muitas vezes antes, quando ela se candidatou para o McDonald’s, Taco Bell, Pack N’ Save e UPS.[1] Ela tem estado desempregada desde 2000, exceto por alguns esporádicos penteados de tranças que ela faz, por uns poucos dólares, nas casas de amigos. Sua experiência anterior de trabalho consiste de curtos períodos de emprego como colhedora de algodão e empacotadora de carne, no Arkansas, e três meses de descarregamento de cartas em uma agência de correios, em Oakland.

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25 agosto 2012

Há alguns dias, Melisha me disse que usou o velho notebook, que eu lhe dera em junho, para enviar uma candidatura on-line para uma entrevista de emprego na fábrica de chocolates Ghirardelli, em San Francisco. Ontem à noite, ela me ligou para compartilhar a empolgante notícia de que hoje, às 15h00, ela teria de estar no Grand Hyatt Hotel, em San Francisco, onde a empresa estaria realizando uma feira de empregos. Ela perguntou se eu poderia levá-la ao compromisso agendado e talvez ficar ao seu lado durante a entrevista, se eles me deixassem entrar. Nós combinamos de nos encontrar às 14h00, em sua casa. Então, ela me encaminhou a mensagem de texto eletrônica que havia recebido do site de candidatura on-line da empresa confirmando seu agendamento, seguida por uma outra, escrita por ela, que dizia “obrigada por tudo estou muito feliz.”

Tão logo  eu estaciono na frente de seu pequeno apartamento térreo, em East Oakland, – ao qual Ray, o companheiro de Melisha, de 49 anos, refere-se como “a garagem” –  eu vejo que ambos estão esperando por mim na calçada. Ray está vestido como de costume, em dias quentes como este – camiseta branca enorme sobre bermudas largas e tênis imensos. Supondo que ele vai junto conosco, eu me pergunto por que ele não se arrumou um pouco (eu tinha decidido me vestir mais formalmente, presumindo que eu poderia acompanhar Melisha na área de recrutamento). Eu lhe lanço um olhar interrogativo, que ele compreende, e ele me diz que não vai junto, pois ele está trabalhando no turno daquela noite no KFC[2].

Ao lado dele, Melisha está radiante. Eu jamais a vi vestida tão elegantemente. Foram-se os tênis sujos, os jeans surrados, as camisetas enormes e o mega hair[3] bagunçado que ela normalmente usa. Seu impecável aspecto revela uma longa preparação e sessões de maquiagem no banheiro pequeno e sem janelas de seu apartamento. Seus cabelos crespos estão perfeitamente penteados e mantidos no lugar por uma quantidade generosa de gel. Embora esteja 29ºC na rua, ela está vestindo um terno de lã azul escuro com risca de giz sobre uma camisa de algodão preta. Eu percebo o desconforto causado pelos sapatos de couro de sua prima, um pouco apertados, e pelo justo terno emprestado de uma amiga. Mas, Melisha parece entusiasmada e acena para mim, com suas ombreiras saltitando. “Obrigado pelo que você tá fazendo, cara,” Ray sussurra no meu ouvido, espremendo-me em seu abraço de urso. Antes de sairmos, Melisha o beija e diz, “Eu vô conseguir! Certeza!”

No caminho para San Francisco, Melisha me conta diversas vezes que está nervosa com a entrevista e repete seu pedido para que eu a acompanhe. Ela diz que realmente espera conseguir o emprego, para que Ray pare de “reclamar que eu não tenho nenhum trabalho”. Questionada sobre o quanto ela pensa que vai ganhar e o que vai fazer com seu primeiro pagamento, ela diz que espera ao menos US$ 12 por hora e que ela vai levar sua “miga” (minha esposa, quem ela viu apenas algumas vezes) e eu para comermos caranguejos e uma lagosta de nove quilos em algum lugar em San Francisco.

Melisha me conta também que as coisas têm melhorado com Ray, embora seu hábito de beber ainda seja um problema. Além disso, ele ainda está saindo com pessoas de quem ela não gosta – especialmente seu filho, Ray Jr., quem ela acusa de ter roubado os US$ 40 que eu emprestara a seu pai alguns dias antes. Ao chegar no hotel, Melisha entra, enquanto eu estaciono.

A sessão de recrutamento se realiza no segundo andar do hotel. Lá, eu vejo uma mesa com três mulheres e um homem, todos eles profissionalmente trajados. Eles me saúdam polidamente, acreditando ser eu o candidato ao emprego, enquanto mal notam Melisha. Explico que eu estou somente acompanhando alguém, e eles apontam para uma sala de conferência alinhada com mesas cobertas de materiais promocionais da Ghirardelli e bacias com seus chocolates. Sentada à ponta da última mesa, no fundo da sala, Melisha preenche atentamente a papelada necessária. Alguns minutos depois, uma mulher branca, vestida de modo administrativo, com seus quarenta e poucos anos, aproxima-se de Melisha – quem ainda está preenchendo sua papelada – e lhe pergunta se ela está pronta para ir. Melisha se levanta e a segue pelo corredor acarpetado até uma sala separada, onde ocorrerá a entrevista.

Eu volto à mesa da frente, na qual o recrutador – um homem de San Francisco, branco, de meia idade e pomposo, vestindo uma camisa rosa, calças brancas e mocassins lustrosos – está conversando e rindo amistosamente com suas colegas. Troco algumas palavras com eles e pergunto que salário e benefícios esses cargos oferecem. Fico sabendo que essa sessão de recrutamento é para cargos temporários e para “trabalhadores horistas de varejo”, sem benefícios. O recrutador também me informa que a Ghirardelli é um “contratante sem vínculo empregatício”[4], o que, em suas palavras, significa que os trabalhadores são livres para ir embora quando desejarem... E, claro, o mesmo vale ao empregador... então, todos são livres para escolher quando se separar!

Após 25 minutos, Melisha sai da sala de entrevista. Apesar de parecer exausta e sem entusiasmo, ela me conta que acha que tudo correu bem. A entrevista foi muito difícil, ela confessa, e uma senhora lhe fez perguntas difíceis, tais como “por que deveríamos contratá-la” e “o que você faria se tivesse um conflito com um colega de trabalho”. Sua memória quanto às respostas é um pouco confusa, e ela não consegue me contar realmente como respondeu a esses questionamentos.

Ao deixarmos o hotel, procuramos, em vão, por um Burger King (a pedido de Melisha), ao redor da Union Square. Finalmente, optamos por um Starbucks, onde ela escolhe um sanduíche de frango e salada, no refrigerador, e pede um achocolatado. Sentados à mesa, eu recebo uma ligação de Ray (quem ficou com o celular que ele divide com Melisha para que ele pudesse checar como foi a entrevista). Ao passar meu telefone para ela, eles conversam rapidamente e ela lhe reafirma que vai conseguir o emprego.

Durante o trajeto de volta para casa, ela me pergunta se oferecemos exames certificadores[5] ou diplomas de conclusão de ensino médio, na San José State University. Respondo que não o fazemos. Ela me diz que gostaria de, pelo menos, obter um exame certificador, uma vez que ela acredita que isso lhe tornará mais fácil conseguir um emprego.

26 maio 2013 – Memorial Day[6]

Às 13h30, recebo uma mensagem de Melisha, quem me conta que seu pedido de emprego ao Walmart, em East Oakland, fora recusado depois que eles fizeram uma verificação de antecedentes dela:

Oi cara feliz Memorial day. Tudo mal pra mim triste... sobre o trabalho no Walmart... o Walmart fez uma verificação por todo o país tudo voltou das multas endereço antigo antecedentes criminais de Arkansas. Ninguém pode dizer que eu não tentei... triste... minha vida tá fodida. Tem algum jeito de você tirar isso pra mim... vc não estuda justiça criminal. Eu preciso de vc nessa cara to estressada agora vou tentar falar pro Ray

Antes de receber a resposta final do Walmart, Melisha estivera confiante de que conseguiria o emprego. Ela fizera complexos arranjos para conseguir urina limpa de uma amiga para passar no exame de triagem prévia (eu havia educadamente declinado seu pedido), o que lhe permitiu alcançar a fase de entrevista. Ela tinha esperado que apenas os registros criminais do estado aparecessem na verificação de seus antecedentes. Em vez disso, todos os seus registros anteriores foram descobertos, incluindo aparentemente condenações que ela não cumpriu na íntegra. Melisha me deu cópias dos seus registros, que o Walmart lhe enviara – todos eles por pequenos crimes contra a propriedade:

16/02/2005: furto de US$ 500 ou menos = 2 meses + US$ 250 (multa/custas)
05/08/2005: falsificação = 36 meses suspensão condicional da pena
10/05/2007: furto = 36 meses suspensão condicional da pena

Melisha me pergunta se é possível fazer esses registros serem apagados. Sua evidente falha em cumprir seu período final de suspensão condicional da pena na íntegra é um problema. O fato de ela ter deixado a comarca (e o estado de Arkansas) ao se mudar para a Califórnia impedirá qualquer eliminação de seus registros.

O resultado negativo dessa candidatura ao emprego decepciona bastante Melisha. Ela estivera de fato confiante em conseguir esse trabalho e frequentemente fantasiara sobre o que ela poderia fazer assim que começasse a trabalhar.

Eu parto de carro, deixando o arruinado hotel da West Grand Avenue. Esse é o seu novo lar desde quando foram despejados de seu apartamento em East Oakland. Eles pagam US$ 200 por semana para um quarto de solteiro, sem banheiro, em um edifício infestado de ratos, ocupado majoritariamente por traficantes de drogas e prostitutas. Não lhes foi permitido trazer seu cachorro Sleepy, um Pinscher exuberante que tem sido uma companhia fiel ao longo de suas provações. Sempre que eles não conseguem esgueirar Sleepy para o interior, dentro de uma bolsa, o cachorro fica em seu degradado Camaro, estacionado nos fundos do prédio.



Notas do Tradutor


[1] Taco Bell é uma rede de restaurantes fast-food que serve comidas estilo Tex-Mex (a amálgama descreve a fusão das culinárias texana e mexicana). Pak’n Save Foods é uma rede de supermercados californiana, atualmente de propriedade da grande rede Safeway. UPS ou United Parcel Service é uma empresa internacional de logística; fundada em 1907, em Seattle, a UPS opera no Brasil desde 1995.

[2] KFC ou Kentucky Fried Chicken é uma rede de restaurantes fast-food, que explora a antiga receita de frango frito do Kentucky, criada pelo Coronel Harland Sanders, fundador do KFC, em 1939. Atualmente, a rede possui lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

[3] No original, hair extensions. No Brasil, o método de extensão capilar popularizou-se com o neologismo mega hair.

[4] No original, at-will employer. A lei trabalhista estadunidense admite relações contratuais de trabalho sem vínculo empregatício; trata-se da polêmica modalidade at-will employment. Um trabalhador contratado at will (à vontade) pode ser demitido sem justificativa e, portanto, sem que lhe seja devido qualquer direito trabalhista.

[5] No original, GED. Os testes de General Educational Development certificam que a pessoa aprovada possui habilidades e conhecimentos acadêmicos de nível do ensino médio. Nesse sentido, assemelha-se ao nosso Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), no qual a aprovação serve como certificação de conclusão de ensino médio para pessoas com mais de 18 anos de idade.

[6] Memorial Day é o feriado nacional no qual os Estados Unidos homenageiam homens e mulheres que morreram enquanto serviam às Forças Armadas. Não confundir com o Veterans Day, celebrado em 11 de novembro em homenagem ao serviço dos militares veteranos.

 

Referências

Hallett, M. 2012. “Reentry to what? Theorizing prisoner Reentry in the jobless future.” Critical Criminology 20: 213–28.

Pager, D. 2003. Marked: Race, Crime, and Finding Work in an Era of Mass Incarceration. Chicago: The University of Chicago Press.

Richie, B. 2012. Arrested Justice: Black Women, Violence, and America’s Prison Nation. New York: New York University Press.

Western, B. 2006. Punishment and Inequality in America. New York: Russell Sage Foundation.

 

Alessandro De Giorgi é Professor Adjunto e Coordenador da Pós-Graduação do Departamento de Estudos de Justiça, da San José State University (Califórnia), e membro do Conselho Editorial da revista Social Justice. O autor agradece os assistentes da pesquisa Carla Schultz, Eric Griffin, Hilary Jackl, Maria Martinez, Samantha Sinwald, Sarah Matthews e Sarah Rae-Kerr por suas inestimáveis contribuições. Mais informações disponíveis aqui.

** Leandro Ayres França é Doutorando e Mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Modernas Tendências do Sistema Criminal. Advogado criminalista. Mais informações disponíveis aqui.

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Para uma descrição mais detalhada do projeto, clique aqui.

Leia aqui os outros registros do estudo:

Regresso ao Nada #2: Os Pobres Trabalhadores.

Regresso ao Nada #3: Lar, Doce Lar

Regresso ao Nada #4: Na Sombra do Cárcere

Tradução de: DE GIORGI, Alessandro. “Reentry to Nothing #1 – Get a job, any job.” Social Justice blog, 28 mai 2014. © Social Justice 2014.

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