EU FUMEI MACONHA, MAS TRAGUEI

EU FUMEI MACONHA, MAS TRAGUEI

Publicado em: 08/03/2015

O Grupo RBS expôs, em seu editorial, sua posição contrária ao uso de drogas, mas favorável à descriminalização da maconha. Como bem dito no texto “toda droga com poder viciante faz mal à saúde e deve ter seu uso questionado e combatido por meios de comunicação com consciência de sua responsabilidade social”. Todos nós devemos questionar o uso de substâncias nocivas à saúde, sejam elas proibidas ou não.

O Grupo posiciona-se no sentido de que “a maconha — e tão somente esta droga, responsável por grande parte do tráfico no Brasil — deixe seu circuito clandestino e seja legalizada, com produção e venda regulamentadas”.

A empresa afirma que “a defesa da legalização” decorre da necessidade de “assumir o completo fracasso da atual política de combate às drogas no Brasil”.

Conforme o edital, a regulamentação seria a melhor forma de prevenir, informar e combater o uso exagerado da droga. Tal argumento, vale dizer, serve como fundamento para a defesa da descriminalização do uso de qualquer tipo de droga. Disse a RBS, ainda, que não é caso de tratar com leveza o uso da maconha, mas que “regulamentada, seria possível combater publicamente seus malefícios, como ocorreu com o cigarro, hoje com o consumo em queda acentuada”.

O Grupo finaliza o editorial, admitindo o “dilema que vive o Brasil devastado pelo crime com origem no tráfico” e afirmando que “é preciso uma guinada no curso desastroso atual e escolher o caminho menos ruim”.

Pois é...

Meu filho João Pedro (12 anos) questionou-me, na saída do show do Foo-fighters em Porto Alegre, em janeiro de 2015, se muitas pessoas usavam drogas ilícitas e se eu já havia usado. Respondi que muitas pessoas fazem uso de drogas ilícitas e que eu já havia fumado maconha algumas vezes. Um pouco impressionado com a minha sinceridade, perguntou-me se outras pessoas próximas, alguns da família, outros amigos, já haviam usado maconha em algum momento. Com a mesma tranquilidade, fui entregando um a um. Falamos sobre o uso ser proibido no Brasil e ser liberado em outros países, sobre os malefícios do álcool (que é liberado) e, principalmente, sobre a possibilidade de a maconha e outras drogas gerarem dependência física e/ou psíquica.

Até que, num determinado momento, JP resolve perguntar: então isso quer dizer que eu vou fumar maconha um dia? Falei que, caso tenha curiosidade e vontade, provavelmente, sim. Quando fores mais velho, se tiveres curiosidade de experimentar... Quando chegar esse momento, eu apenas espero que tenhamos conversado bastante sobre como é ruim para o corpo esse tipo de intoxicação, espero que tenhas essa mesma boa cabeça que te faz tão lúcido e tão crítico e que esteja bem resolvido em relação ao teu corpo e tua individualidade, mas, principalmente, que o país já tenha acordado para a necessidade de descriminalizar o uso da maconha.

Ou vamos para o Uruguai...

Entro em um café em Amsterdam. A manhã ensolarada e de temperatura amena joga a luz amarelada do sol pela grande janela e pela porta do lugar até o meio da peça ampla, de pé direito elevado, causando um bonito contraste da luminosidade da entrada com a parte mais escura ao fundo do ambiente. Num balcão de vidro, pode-se ver uma grande variedade de folhas verdes de maconha, haxixe, skank, além de bolos, chás, chicletes, cachimbos, narguilés, entre outras bugigangas. Um menu apresenta os diversos tipos de drogas com nomes criativos do tipo “pure highway”, “red libanon”, “purple haze”, entre outros. Optei por um tipo “alegria-leveza-tranquilidade”.  O cigarro veio pronto dentro de um tubete plástico. Sentei próximo de um senhor de cabelos completamente brancos, idade entre 60 e 65 anos, que lia jornal e fumava um baseado. No rosto, entrecortado por rugas bastante pronunciadas, havia um sorriso discreto, suave, quase imperceptível. Era a cara da tranquilidade.

Acendi meu baseado e fiz toda a preparação para tragar a fumaça. É que não consigo tragar com a naturalidade das demais pessoas. Nunca na vida fumei um cigarro dos convencionais. Odeio. Detesto. Como nunca tive vontade de fumar na infância ou na adolescência, não passei pelo aprendizado que, entre engasgos e crises de tosse, torna natural a passagem da fumaça da boca para o pulmão. Acho isso uma agressão. Fumaça no pulmão é uma agressão. Pois bem, com muita concentração eu não engasgo. Pensa, pensa, calma, vai puxa, vai inspira, calma, vai, espera agora, calma, solta... ufa... deu... cofff... cooffff... ccccccooooooofffff... forte esse negócio... Bueno, de repente, tudo foi ficando vocês sabem como... engraçado... muito engraçado. No meu caso, engraçado além do limite humano. Tenho acessos descontrolados de riso, até ficar quase sem conseguir voltar a respirar. Além do limite. Costumo dizer que devo ser um bom parceiro para o uso recreativo da maconha, porque divirto quem está junto comigo, com meus acessos de risada. Depois, uma volta pela cidade acabou gerando uma situação bastante insólita, porque eu não fazia a melhor ideia da localização do meu hotel. Bem mais tarde, achei. Totalmente por acaso, claro.

Eu já tinha quase trinta...

Fumei pela primeira vez, quando estava próximo dos trinta. Não me arrependo. Esperei o meu momento. Na adolescência fui excluído de alguns grupos de amigos por não fumar, por não cheirar, por não fazer muitas coisas. Na faculdade ficava na roda de maconha, mas não me passavam o béqui. Enfim, sou adepto da boa alimentação, da prática de esportes, do cuidado com a mente e com o corpo. E sou daqueles chatos. Sou absolutamente contra a ingestão de qualquer tipo de substância nociva para a saúde e, apesar de brigar com meus para que se cuidem, acredito que cada um tem o direito de decidir o que é bom para sua vida.

Concordo com o editorial do Grupo RBS, quando afirma que “apoiar a legalização das drogas não é uma decisão fácil para nenhum governo, parlamento ou meio de comunicação”. Lembro do Bill Clinton, dizendo que fumou, mas não tragou.

Só a informação salva...

Luiz Eduardo Soares, Julita Lemgruber, Salo de Carvalho para abrir a cabeça ativa.

É hora de acabar com a guerra às drogas para estancar o ciclo de violência que se alastra e multiplica, sobretudo nas regiões mais pobres, onde jovens negros são mortos diariamente em nome de uma (pseudo) política de manutenção da paz e da ordem. Sobre o assunto: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/ .

Assistam no site do Instituto Tolerância ao filme QUEBRANDO O TABU (https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/).

Nossos filhos merecem saber. Alguém lhes contará e mostrará como faz. Mostrará como acende, como prende e como passa. Não falo de incentivar o uso, acho que isso está bem claro. Não há razão para tratarmos com tanta hipocrisia um tema tão simples e que deveria dizer respeito à intimidade de cada um. Temos o direito de usar substâncias que nos trazem algum tipo de prazer, ainda que ao custo de danos à nossa própria saúde. Assim tem sido com o cigarro, com o álcool, com os remédios controlados, com tantas outras coisas.

Por que continuamos tão hipócritas na questão das drogas?

Fico imaginando o que aconteceria se o Instituto Tolerância fizesse uma campanha na qual as pessoas dissessem apenas para que fumaram maconha alguma vez na vida. Imagino juízes, presidentes de tribunais, promotores de justiça, procuradores, delegados de polícia, advogados civilistas, tributaristas, trabalhistas, criminalistas, médicos, apresentadores de televisão, radialistas, atores e atrizes, vereadores, deputados, senadores, prefeitos e governadores, religiosos, ateus, professores, enfim, a turma toda com e sem gravata.

Pois é... eu fumei e traguei. E gostei. E ri muito. E comi muito chocolate depois. E estou bem.

Chega de guerra. Chega de mortes. Chega de prisão. Chega de hipocrisia.

Parabéns RBS.

JM

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