CONSTRUÇÃO

CONSTRUÇÃO

Publicado em: 26/08/2015

Francisco Buarque de Holanda escreveu a letra da música “Construção” em 1971, possivelmente a partir da escrita de Pedro Pedreiro, em 1965. Chico conta a história de um trabalhador da construção civil da cidade de São Paulo, pelo que eu interpreto. Fica evidente na letra, a coisificação e mecanização do homem, sobretudo num contexto de ditadura militar, no qual as pessoas se portavam como máquinas, sem questionamento, sem manifestação de pensamento, sem contestação.

Os versos repetitivos, com uma proparoxítona como última palavra de cada verso, descrevendo a rotina do homem urbano bem comportado e passivo, com sua vida sempre igual, dia após dia, retratam o contexto de silêncio e submissão ao regime. O homem é coisa:

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

 

Em 70, antes de compor “Construção”, quando volta da Itália, Chico Buarque compõe “Apesar de você”, uma das mais conhecidas canções contra a repressão militar. A música está separada em dois momentos: o hoje e o amanhã. O hoje é caracterizado pela submissão do povo à ditadura:

Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão

A minha gente hoje anda

Falando de lado

E olhando pro chão, viu

 

No amanhã, a esperança de um novo dia:

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder

Da enorme euforia

Como vai proibir

Quando o galo insistir

Em cantar

Água nova brotando

E a gente se amando

Sem parar

 

Apesar de você, Médici, amanhã há de ser outro dia.

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar

Vendo o céu clarear

De repente, impunemente

Como vai abafar

Nosso coro a cantar

Na sua frente

 

Pois bem. Ontem (25/08/15), tive a alegria de dividir uma mesa com as professoras Ana Paula Motta Costa e Ana Cifali, no “COLÓQUIO VIVO: Reformais Legais no Âmbito Penal Juvenil”, na Faculdade de Educação da UFRGS. Durante a discussão com o público, o período de repressão militar e a fragilidade da democracia foram tópicos lembrados, especialmente diante da possibilidade de ascensão dos partidos e dos políticos favoráveis ao uso da força militar, policialesca, punitivista, beligerante do Estado contra o povo marginal, entendendo-se como tais, evidentemente, a massa de pessoas refugadas, seres desprovidos de utilidade, economicamente inativados, párias, apátridas, vermes, lixo humano que atravanca o progresso e o desenvolvimento da nação branca, escolada, perfumada, viajada e feliz.

 

A democracia brasileira é jovem e, por isso mesmo, precisa de cuidados. Anteontem, Chico pedia para afastar esse cálice (cale-se):

Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca, resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta

De que me vale ser filho da santa

Melhor seria ser filho da outra

Outra realidade menos morta

Tanta mentira, tanta força bruta

 

Tão pouco tempo e já não lembram. Quem não viveu e não viu, acha que nem existiu. Quem se calou, acovardado ou beneficiado, hoje ainda proclama que eram os bons tempos. Democracia é construção diária. Em pleno COLÓQUIO VIVO, no meio daquele povo jovem, vivo, ativo, cheio de tesão, reverenciamos a democracia para além da liberdade de expressão, porque estamos diante da responsabilidade de não permitirmos que se percam conquistas tão importantes, pelas quais muitos sangraram. Estamos diante de um período difícil, em que reina a intolerância, o ódio, o racismo e todas as fobias pela diferença e contra o diferente. 

Pois neste momento de tanta incerteza, resta-nos a serenidade de quem está disposto a resistir, até pacificamente, sem cansar, na defesa dos direitos e das liberdades conquistadas... PORQUE A ESPERANÇA NÃO FAZ PARTE DA LUTA!

JM

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