CÁRCERE EM IMAGEM E TEXTO

CÁRCERE EM IMAGEM E TEXTO

Publicado em: 14/10/2015

A história por trás das fotos

 

Sidinei José Brzuska*

 

A história das imagens que ilustram esta obra tem origem no final dos anos 90, quando a fotografia digital ainda não fazia parte do nosso cotidiano. Não sei explicar exatamente o motivo que me fez levar ao presídio de Santa Rosa uma antiga e simples máquina fotográfica, daquelas de filme, muito comuns à época.

Costumava ir com frequência ao presídio, em dias variados, inclusive nos finais de semana, quando havia alguma confraternização ou algum evento qualquer. Entrava nas celas e conversava com os presos e seus familiares. Os agentes penitenciários, naquele tempo como agora, não tinham o hábito de entrar nas galerias e nas celas. Assim, no momento em que eu atravessava a grade principal da segurança, aquela que divide os presos dos soltos, passava a ser mais um na galeria, como se fosse outra visita, convivendo naquele ambiente de cumplicidade.

Com o tempo, os presos e familiares acostumaram-se à minha presença, estabelecendo-se um princípio de confiança. Num desses dias de visita, um familiar pediu-me que tirasse uma foto da família que estava reunida na cela, para registro. Aquele gesto corriqueiro, quando os integrantes da família se agrupam e posam para a foto, talvez tenha ocorrido pela primeira vez em um presídio.

Feito o registro fotográfico da família, na semana seguinte entreguei a foto ao preso, que a grudou na parede da cela, exatamente como as pessoas fazem em casa. Essa foto foi vista por familiares de outros detentos, que passaram a me requisitar, igualmente, para que os fotografasse na companhia dos seus entes queridos.

Tornei-me, assim, uma espécie de fotógrafo de família, e percebi que as fotografias produziam um efeito positivo na prisão. Os presos que fixavam as fotos nas paredes das celas passavam a cuidar melhor daquele ambiente, como se fosse um prolongamento de suas casas.

Somente percebi a real importância dessas fotos familiares quando, quase dez anos mais tarde, entreguei uma fotografia a um preso que cumpria pena na cidade de Santa Maria. Uma foto simples, de um casal, com suas duas filhas ao centro. A filha menor deveria ter uns cinco anos e segurava uma boneca de pano cor-de-rosa, enquanto a mais velha, iniciando a adolescência, deveria ter por volta de doze anos.

No momento da entrega da foto, o preso agradeceu-me, emocionado, dizendo que aquela era a primeira foto que tinha com a família. Ele estava preso havia quinze anos, no regime fechado. Conheceu a mulher depois de preso. As filhas foram concebidas dentro da cela. Sua companheira nunca o abandonou. E aquela foto sintetizava a razão do seu viver. A razão de sua esperança. Algo pelo qual realmente valia a pena lutar.

Cinco anos depois, dei-me conta de que a oportunidade de acessar internamente as prisões, com a possibilidade de registrá-las por fotografias, não deveria se limitar aos presos e seus familiares. As fotografias também poderiam servir para contar um pouco da história do sistema prisional no Brasil. Passei, então, a registrar a estrutura do sistema, suas dores, suas falhas, sua vida.

Há cenas que só podem ser descritas através da luz captada por uma máquina fotográfica. A fotografia tem o poder de sensibilizar o olhar que se acostumou a não ver. A realidade prisional, tão severamente ignorada, só é percebida e acreditada pelos que estão distantes dela porque as imagens falam por si mesmas. E enxergar a realidade é precondição fundamental para modificá-la. A fotografia tem essa capacidade de colocar em evidência o que há de perverso não somente para que seja notado, como para que possa ser transformado.

A fotografia documental, além disso, tem o poder de servir de estímulo à reflexão. As imagens que compõem este livro foram escolhidas aleatoriamente e interpretadas livremente pelas pessoas que ajudaram a escrevê-lo. Esta rica conexão entre imagens e textos pode servir para desencadear um olhar novo sobre o sistema prisional, tão necessário em nossos dias.

 

 

*  Juiz de direito.

DISPONÍVEL EM: http://www.livrariadoadvogado.com.br/prisoes/carcere-em-imagem-e-texto-0856953808

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