ADVOCACIA CRIMINAL. DEIXAR FALAR. SABER OUVIR.

ADVOCACIA CRIMINAL. DEIXAR FALAR. SABER OUVIR.

Publicado em: 13/02/2015

Entro na sala de reuniões e vejo uma senhora entristecida, cabisbaixa, com jeito de quem já não tem forças para continuar sustentando sobre os ombros o peso da angústia e do desespero. Deixei-a falar, encorajando-a para que dissesse tudo o que a estava atormentando. Uma das mais importantes habilidades do criminalista é saber ouvir. Saber dar tempo para que a pessoa sinta-se à vontade para contar o que aconteceu. Seu marido matara um homem. Em legítima defesa, dizia ela. Nós pertencemos ao grupo de casais da igreja há anos. Meu marido é militar aposentado. Nunca tivemos qualquer problema com a polícia ou com a justiça, falava-me a senhora com a voz embargada e as mãos trêmulas.

Realmente, os jornais já estampavam a notícia da morte, especialmente pelo fato de ter ocorrido no interior de uma igreja. O militar efetuara disparos de revólver contra o ex-genro. Depois de mais de uma hora de atendimento, com todas as questões contratuais resolvidas, combinei que faria a visita ao militar no quartel onde se encontrava preso para tratar dos assuntos relativos ao pedido de soltura e da defesa. Aqui começa o ponto mais importante para esta narrativa: o fator humano. A importância de estarmos abertos para acolher o sofrimento do outro, para confortar, para amparar, sem prejulgamento, sem preconceito, sem prepotência.

Cheguei ao local onde o militar estava preso e deparei-me com um homem de idade avançada, bastante abatido, com aspecto de desnutrição até, visivelmente abalado com a situação e sentindo a dor de ter causado a morte de uma pessoa, além da vergonha terrível de ter sido levado à prisão. Aqui está o centro do tema que quero enfrentar nessas rápidas linhas. É que a advocacia criminal coloca o profissional do direito diante do ser humano em estado de absoluta fragilidade. Não há facínora, por mais frio e sanguinário, que não sinta o peso da cadeia, o estranhamento da algema nos pulsos, a angústia de ser levado ao cárcere, deixando para trás a vida vivida até ali, as pessoas, os compromissos do dia seguinte, as contas a pagar, as coisas a fazer. Sempre me causa sofrimento ver esse pânico no fundo dos olhos das pessoas que atendo em situação de flagrância ou quando estão nos primeiros dias de clausura. Ali, eu estava diante de uma pessoa de mais idade, que levara uma vida pacata e absolutamente ordeira até aquele momento, mas que, num ato que durou uma fração de segundo, tirou a vida de outrem e estava agora preso, a espera de um processo por crime contra a vida perante o Tribunal do Júri.

Ao encontrar meu cliente, que veio em minha direção já aos prantos, fiz aquilo que sempre entendi correto. Recebi em mim toda a sua angústia, a sua dor, a sua vergonha, para fazer disso a minha angústia, dor e vergonha no processo que estava assumindo. Minha função, naquele momento, como sempre acontece, foi mostrar para aquele ser totalmente fragilizado que eu, a partir daquele momento, faria o impossível se necessário, para assegurar-lhe o direito a um julgamento regular, célere e justo. Levante a cabeça. Respire fundo. Olhe nos olhos da sua família. Não espere que todos venham dar-lhe força. Agora é nossa tarefa, minha e sua, mostrar para eles e para todos, que aqui está preso um homem que agiu em defesa da própria vida. Este é o nosso lugar. O lugar daqueles que lamentam a morte do outro, mas o lugar de quem sabe que morreria se não agisse como agiu. Portanto meu senhor, enxugue essas lágrimas, porque precisamos começar a trabalhar, juntos, fortes e destemidos.

Eis que um sorriso tímido surge no rosto esquálido do homem antes destituído de qualquer força. Algumas palavras vão dando forma a uma espécie de desabafo, enquanto a postura, antes totalmente encurvada, agora vai tornando-se cada vez mais ereta, a ponto de elevar seu olhar até permitir alguma sensação de altivez. Mais uma vez, restava deixar que falasse, demoradamente falasse. Assim foi, até que retornou para a cela renovado, confiante, pronto para a batalha.

Deixar falar. Saber ouvir. Acolher o sofrimento do outro. Fazer acontecer um pacto indestrutível de confiança com o acusado. Ser atencioso com os familiares. Ser intransigente na defesa do direito de defesa. É por essas e tantas outras, que os criminalistas são seres apaixonados pelo que fazem.

Haja!

JM

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